terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O monstro ferido

I may seem crazy
Or painfully shy
And these scars wouldn't be so hidden
If you would just look me in the eye
I feel alone here and cold here
Though I don't want to die
But the only anesthetic that makes me feel anything kills inside
Plumb - Cut


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Eu era uma menina quieta, sempre estudando, sempre sozinha, no meu quarto. Não me lembro exatamente de quando aquilo começou. Era um barulho seco, vazio, várias batidas repetidas na parede que me assustavam. E por mais que investigasse, não havia causa aparente para aquilo. Era um som com vida própria, não era um som físico. Por vezes, cheguei a pensar que era algo de minha mente, mas era real demais. Aquele barulho sempre me assustou. Aquele barulho me assombrou por toda a adolescência.

Era um barulho cínico, muito estranho, que me perseguia sempre que eu estava sozinha no quarto. No começo não sentia medo. Saía do quarto e ia ao cômodo do lado investigar a causa do barulho. E nunca encontrava nada. Nenhuma janela aberta, nenhum vento, nada. E o barulho mudava de lugar. Ás vezes eu ouvia em dois pontos diferentes ao mesmo tempo. Foi aí que realmente começou a me assustar.

Eu nunca contei a ninguém porque sabia que ninguém nunca me daria uma explicação plausível. Só eu ouvia, mesmo quando mais alguém estava em casa. Dois motivos possíveis: ou era algo da minha mente ou eram espíritos. E sou muito cética quanto aos dois.

A lembrança mais marcante que tenho daquilo foi de uma tarde, quando o barulho começou, como se alguém estivesse batendo na parede atrás da estante de livros. Eu quis fingir que não ouvi, mas ele não parou. Ele começava e parava, repetidas vezes. Eu quis investigar aquilo. Quando começou de novo, olhei para o relógio de pulso e mantive o olhar fixo no relógio, imóvel, assustada, por aproximadamente um minuto e no exato momento em que tirei os olhos do relógio e olhei para onde o barulho parecia vir, o barulho cessou.

Nesse dia percebi que esses eventos estavam diretamente relacionados ao meu medo. Era como se o meu medo alimentasse aquilo, como se alguma coisa estivesse brincando comigo, me acorrentando a dor que eu mesma criava.

Isso durou uns cinco anos. Nesse tempo, sumiu completamente por alguns meses e depois voltou. Depois que me mudei da casa dos meus pais não ouvi mais nada, mesmo estando sozinha em casa. É como se o meu medo morasse lá com eles, porque eu nunca me senti em paz em casa, nunca me senti compreendida e amada o suficiente com minha família.

Nas últimas férias, voltei pra casa dos meus pais e voltei a ouvir o mesmo barulho, mesmo tendo mudado de quarto. E nas duas semanas que fiquei lá, ouvia o barulho todas as noites antes de dormir. Meu monstro havia voltado. Meu medo me esperava debaixo da cama e me arrastou para o terror novamente.

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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Fogo com fogo

"Fight fire with fire
Ending is near
Fight fire with fire
Bursting with fear"
Metallica - Fight fire with fire

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Gabriela chegou em casa com o choro engasgado na garganta. Largou a bolsa, pegou a toalha e foi para o banho. Lá deixou as lágrimas rolarem junto com a água. Chorou cada dor que se detinha em seu coração, cada gota que fez transbordar o copo e derramar-se em lágrimas. Lavou o cabelo, lavou a alma. Mas ainda a dor, como ferida tratada, não cicatrizada.
A vida queimando nas veias, alavancando temores, corroendo sonhos. Foi ao quarto do pai, pegou a espingarda, analisou a munição. Seria fácil e rápido. A solução sem anestesia, sua última dor. Sem vida, sem receio, arrumou a munição, mirou na cabeça desajeitadamente. Sabia que a arma era barulhenta, os vizinhos ouviriam e logo a família chegaria. Odiava fazer barulho, não queria ser notada.
Ouviu o ronco do carro do pai. Ainda daria tempo, se ela quisesse. Era só puxar o gatilho. Por algum tempo ainda ficou paralisada, segurando a arma, mas faltou coragem.
Pôs a arma na gaveta, mas a intenção continuava na mão. Só uma questão de tempo pra ter coragem.

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terça-feira, 11 de outubro de 2011

Máscaras

"Não me diga: eu te disse
Isso não vai resolver
Se eu explodo o meu violão
O que mais posso fazer?
Isso é tão desconfortável
Me ensinaram a fingir
E se eu for derrotado
Nem sei como me render"
Pitty - Brinquedo Torto


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Certas pessoas tem o "dom" de saber mentir. Não sei se feliz ou infelizmente não sou uma delas. Não gosto de fingir. Tampouco me agrada que mintam pra mim. E nem adianta dizer que é pra me proteger, verdade não me faz mal, por mais que doa. A dor, já me acostumei com ela. A mentira me ilude.
Dizem que nem Jesus agradou a todos. Não sei, nunca li a Bíblia, mas me parece crível. Desde quando a vida me deu maturidade pra me aceitar como sou, nunca me esforcei por agradar os outros. Prefiro ser odiada pelo que sou, do que amada pelo que não sou. E pago o preço, poucos são os que me amam, mas são só esses que me interessam.
Mentir, mesmo que lá no fundo, me faz sentir culpa. Não por medo de ser descoberta, mas por não aceitar a verdade. Porque se eu minto é porque eu não gosto da minha verdade e quero esconder dos outros. Mentir dá câncer. Sério. Porque isso tudo fica aí guardado dentro de ti e tem que sair de algum jeito. E se tua mente te odeia, teu corpo vai refletir isso.
Me espanta a facilidade que algumas pessoas tem pra mentir. E me espanta ainda que elas sempre vão ter uma desculpa pra isso. Mentira encobrindo mentira. Pedra rolando outra pedra barranco abaixo, desmoronando tudo, nem sempre em cima de quem merece. Bola de neve que só aumenta, que nem nos desenhos que a gente via quando era criança. Ah, que tempo bom aquele de criança, quando a gente não mentia. Pelo menos não tanto. Pelo menos não com malícia. Pra que que a gente mentia quando era criança? Pra ganhar um doce, passear, ver TV? Ninguém se prejudicava com isso. E em algum ponto dessa vida a gente passa a não se importar com as consequências das nossas "mentirinhas".

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mascaras

domingo, 9 de outubro de 2011

A cruz


"Oh Mary, Mary
To be this young is, oh, so scary
Mary, Mary
To be this young I'm, oh, so scared
I wanna live, I wanna love
But it's a long hard road out of hell
You never said forever, could ever hurt like this
You never said forever, could ever hurt like this"
Marilyn Manson - Long Hard Road Out Of Hell

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Porque não importa o quanto possa doer. Tem que doer e você tem que passar por isso. Porque se fosse tudo indolor não teria graça, seria tudo insensível, anestesiado, dopado e essa vida não seria mais do que um imenso vazio.

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Avril espelho

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Sem ar

"Esqueci as regras do jogo
E não posso mais jogar
Veio escrito na embalagem
Use e saia pra agitar
Vou com os outros pro abate
O meu dono vai lucrar
Seja cedo ou seja tarde
Quando isso vai mudar?"

Pitty - Brinquedo Torto


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Ás vezes me sinto sem rumo, sem esperança, sem vida, sem ar. Momentos em que não consigo fazer nada, só ficar olhando para o vazio, ouvindo os barulhos, sentindo os cheiros, sem energia pra agir. Momentos estes em que só respiro e não penso em nada (ao menos tento). Não penso, não sinto, não minto. Me esqueço de mim.
Às vezes mergulho no passado, outras vezes no futuro. Não penso, só imagino. A vida é uma imensidão de possibilidades e só um ínfimo delas se concretiza. Mas e o que não se concretiza, pra onde vai?


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Photobucket

domingo, 28 de agosto de 2011

Vermelho

"Waiting for the one
The day that never comes
When you stand up and feel the warmth
But the sunshine never comes
No, the sunshine never comes"

Metallica - The day that never comes

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Na volta pra casa, depois de um dia cheio, ela esperava seu ônibus na parada. Sozinha. Pensante. Coração pulsante. Num repente, se pôs a pensar nos relacionamentos antigos. Não se lembrava de nenhum que tivesse dado certo. Se doava demais, esperava demais e sempre acabava na mesma história: "Você é maravilhosa, mas não quero nada sério..." E mais uma vez sentiu o aperto na garganta. Se sentia alguém usada, manipulada. Por mais que se esforçasse, nunca fora capaz de fazer alguém se apaixonar por ela. Um ônibus passou, não era o seu. Viu seus olhos vermelhos de cansaço no reflexo do ônibus. A verdade é que nunca seria boa o bastante para ninguém.
O ônibus atrasado. Esperava. A impaciência aumentando. O tempo úmido após a chuva. O vento frio da noite chegando. Odiava o frio, sempre a fazia se sentir mais só.
Viu no horizonte, um ônibus vindo. Forçou o olhar pra ler o letreiro. Era o seu. Embarcou sem sequer olhar para os lados, concentrada em seus pensamentos. Olhou pela janela, desembaçou o vidro e inevitavelmente mirou suas unhas. O esmalte vermelho descascando. Assim como seu sorriso, cada dia mais se desmanchando. Ali estava o símbolo da sua sensualidade imcompetente.
Sentiu falta de casa, da infância, da mãe sempre sorridente, lhe trazendo um agrado do mercado. Que saudade daquele tempo em que não precisava de muito pra ser feliz! Agora, vivia sozinha, avessa à sociedade, às pessoas. Toda vez que saía de casa, sentia como se arrancassem um pedaço seu.
Abraçou seu casaco, levantou segurando-se nos bancos e desceu perto de casa. Sua casa, enfim, onde poderia regenerar o que perdeu na guerra com a sociedade e se preparar para o próximo dia.

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Espada

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Da solidão

"Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado,
Não falo de amor quase nada,
Nem fico sorrindo ao teu lado."

Raul Seixas - Gita
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Eu sempre fui uma solitária. Desde a infância, trancada em casa, sem amigos. Nunca tive muitas companhias durante a minha vida, de tal modo que acabei me acostumando à solidão. Me acostumando não quer dizer gostando. A adolescência não foi uma fase fácil. Minha quietude e solidão sempre foram vistas com estranheza pelos demais "adolescentes normais". Fase esta que já superei, embora sempre pense em muitas coisas que poderiam ter sido diferentes.
A solidão, hoje, é ainda parte de mim. A solidão me define. Quando penso em mim, penso em mim só. Isolada num canto, sem ninguém pra conversar. Me estranho quando estou acompanhada, por mais que goste de estar com a pessoa. Seria isto solidão mesmo ou egoísmo extremado? Não sei, talvez os dois... O fato é que tenho grande dificuldade em fazer amizades, pois falo pouco com as pessoas. E sendo assim, a situação só pode ser pior nos relacionamentos amorosos.

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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Meu novo fim

"Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!"

Mario Quintana

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Final de semestre e mais um resultado trágico: mais algumas reprovações no meu histórico. Mas dessa vez foi diferente. Da última vez em que repeti cadeiras na faculdade foi um grande "trauma" pra mim. Eu queria passar de qualquer jeito, e com o ritmo frenético dos estudos não dá pra absorver o conteúdo de todas as matérias. Resultado: me fodi legal no fim.
Agora me posicionei do outro lado da equação: foda-se tudo! Se tiver que levar 10 anos pra fazer essa porra de faculdade, eu levo. Não tô nem aí, não me importo mais. A vida é muito mais do que uma carreira profissional de sucesso, é mais do que dinheiro e carro do ano. Tenho que levar isso tudo num ritmo mais suave, do contrário, vou acabar com sérios problemas. Meu curso não é um dos mais fáceis. Conheço um bando de nêgo por aí que não estuda metade do que eu estudo e passa em tudo com ótimas notas, em cursos de outras áreas.
E outra coisa também: a vida não vai acabar se eu não concluir a faculdade. Tem muita gente por aí, com uma vidinha simples, uma casinha simples, tudo simples e vivendo muito bem. E mais uma outra coisa: faculdade não é garantia de nada. Nada!
Vou mais é aproveitar minhas férias nessa ressaca moral, aceitar tudo do jeito que está e ir levando a vida. Semestre que vem, quem sabe, eu aprendo a estudar direitinho.

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Natureza

sábado, 16 de abril de 2011

O ar, o pó e a estante

"Depois você me vê vermelha e acha graça, mas eu
não ficaria bem na sua estante."
Pitty - Na sua estante

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No começo, foi um olhar. Depois a descoberta. Ela fugia, ele insistia. Enfim, uma chance. Num momento de carência e de solidão, se deixou levar. E ele provou do seu beijo, do seu toque, do seu corpo.
Mas faltava algo. Não se sentia bem assim, como quem fosse lembrada apenas para o sexo. Se era só para isso, não valia a pena.
Sentia-se um nada. Uma coisa. Um objeto. Uma bonequinha que foi escolhida aleatoriamente entre as demais. Veio alguém, lhe tirou o pó e levou.
Precisava de mais. Queria um afago, um toque de alma, um pouco de atenção. Uma dose de romance faltava. Um carinho, uma palavra e um olhar sincero seriam suficientes para manter o sentimento vivo.
Mas ele esqueceu de amá-la.
E seu amor mergulhou sem inspirar. E como o amor precisasse de ar, se afogou. E seu coração se desfez, depois se curou e se fechou para o amor. Nunca mais amaria novamente.
E se viu de novo em meio a solidão. E se conformou com isso, aceitando-a como sua sina. Sabia que nunca seria amada e isso não mais lhe preocupava, pois ela também não seria mais capaz de amar.
E enfim voltou para sua estante como um brinquedo que perdeu a graça, onde ficou até nunca mais.

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quinta-feira, 24 de março de 2011

Tudo ou nada

"But though you're still with me
I've been alone all along"

My Immortal - Evanescence

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E tudo começa do nada, como algo que sempre estivera ali. E tudo se transforma em dor, a qual nasceu do medo, que nasceu do arrependimento, que antes também era medo. Um mar de chagas a se curar. Um mar de lágimas a represar.
Poucos saberiam interpretar sua tristeza, que antes fora quietude, que nasceu da solidão. Uma tristeza que sempre fora só sua. E de mais ninguém. Sempre a mesma sina, a solidão lhe perseguindo, mesmo quando alçava uma mão. Tentar não era mais opção, só lhe traria mais dor. Não queria amar pela metade, nem arrastar-se atrás de carinho. A escolha era tudo ou nada. E assim, desistiu de amar, resignando-se a sua vida amarga.


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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O pássaro e o trevo sem folhas

"Then it comes to be that the soothing light at the end of your tunnel
Was just a freight train coming your way"
 Metallica - No Leaf Clover

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O sol nasce, pássaros cantam. Eu acordo bem cedo com meus amigos cantando, num suave despertar. Que linda música eles cantam. Um dia farei parte dessa sinfonia, um dia cantarei como todos eles. Mas eu ainda não sei cantar. Sou pequeno, tenho a voz fraca e desafinada. Minha mãe, que me aqueceu e protegeu durante toda a noite, junta-se a orquestra anunciando mais um lindo dia. Como canta bem a minha mãe! Quero aprender a cantar como ela. Um dia aprenderei. Esse dia logo chegará, eu sei.
Minha mãe sai do ninho pulando num galho e estica as asas, depois as pernas, como seu próprio corpo lhe ensinou a fazer. E voa. Oh, como é bonito vê-la voar. Como é bonito vê-los todos voarem. Mas eu ainda não sei voar. Minhas asas são pequenas e fracas.
Não sei voar, mas hoje quero tentar. Imito minha mãe, pulando no galho e me esticando como ela fez. Ainda com medo, bato minhas asinhas, assim como minha mãe fez há pouco e de repente, eu voo também. Ah, como é bom voar. Sentir o vento roçando minhas penas e ver o mundo tão pequeno lá embaixo. Pouso numa galho para descansar, pensando em logo voltar a voar. Num impulso, já estou no ar novamente. Estou voando, não sou mais pequeno e fraco. Eu sei voar.
De repente, um obstáculo à frente, não consigo identificar bem o que. Um baque forte e a dor invade meu corpo. Não consigo mais voar. Não consigo. Quero voar, apesar da dor, mas não consigo. Tento me mover, mas não posso. Caio. Mais dor ao atingir o chão. A dor me domina, não posso mais respirar. Não posso mais. Num último alento, olho para o céu. Lá está o sol, meu companheiro, única testemunha de minha aventura. E ele me consola com seu calor aconchegante. Como foi bom voar, meu amigo! Ah, como foi bom voar!

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WorldSea

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Doce Embriaguez

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"Olha pra mim
Diz que não foi só um sonho meu
Aconteceu, a luz apagou
Doce embriaguez...
E o que era o acaso se perdeu
Meia-noite no meu quarto eu senti você

E amei demais
Em todos os sentidos
E o meu mundo é ficar com você!
Te amei demais
Te dei um abrigo em meu corpo,
Em meu amanhecer
Amei demais, sempre mais...
Baby, quero esse amor comigo!"


Embriaguez
Anjos Do Hanngar

Composição: D. Marco




terça-feira, 24 de agosto de 2010

O assassino

"O homem é o lobo do homem."
Thomas Hobbes


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A preguiça me dominando cada vez mais. Outro fim de semana perdido, sem fazer absolutamente nada além de dormir e ficar na internet. E tanta coisa pra estudar. Essa minha vidinha mudou muito, não tenho mais o mesmo gosto pelo estudo, não saí mais pra me divertir com os amigos, não sei mais o que fazer, e ao mesmo tempo tenho tanto pra fazer. Quem diria que eu acabaria assim, cansada de tudo e de todos, sem ao menos ter começado direito? Não era o que eu esperava de mim.
Os exercicios de cálculo se acumulando, não demora vem mais uma prova. O pessimismo atropelando meus pensamentos. Vou rodar mais uma vez. Física já me cansou há tempos e eu nem comecei ainda. A mesma física massacrante do semestre passado. É dura essa vida de engenheira. Tudo é desculpa para não estudar. Não me sinto bem com isso. O que eu não daria por uma boa desculpa pra trancar o semestre, largar tudo e recuperar o fôlego. Aff. Pura desculpa pra adiar tudo de novo. A velha mania de deixar tudo pra depois, é o que todos dizem, mas e a vontade de fazer agora? Onde está?
Hoje é mais uma aula que se repete, mais um dia perdido. Pego os livros, o fichário, vai tudo de qualquer jeito pra mochila. Troco de roupa, não tomo banho. Ninguém vai reparar mesmo. Tranco a porta e saio correndo de novo, atrasada. Não tenho motivo pra me atrasar. É a velha mania de deixar tudo pra depois.
E lá vem o ônibus, o mesmo de sempre, tudo igual, todos os dias. Tanta repetição cansa. Não estivesse eu tão frustrada com isso, teria reparado algo no ar. Mas, não, estava muito preocupada com meus probleminhas que não percebi o que poderia acontecer. Era a morte me encarando no olhar gélido do motorista, o mesmo carrancudo de sempre. Passo na roleta, o cobrador está estranhamente assustado. Talvez por alguma barbeirice do motorista, pensei. Não era esse um bom motivo. Há coisas muito piores nesse mundo, deveria ter pensado. No banco logo atrás do cobrador, um senhor muito estático, lendo jornal. Um senhor muito estranho, não movia sequer os olhos.
O ônibus está estranhamente vazio, exceto por mais duas pessoas dormindo no fundo do ônibus. Muito estranho mesmo. Tudo está estranho. Me aproximo de um dos bancos do meio. É sempre bom sentar no meio. Reparo numa mancha de sangue no chão antes de sentar. Meu olhar continua. Não é uma mancha, é um rastro que vem do fundo do ônibus. As pessoas não estão dormindo, estão mortas. E não são só duas, são várias amontoadas e escondidas bem no fundo do ônibus. E antes que eu possa pensar no que fazer, correr ou gritar, sinto a lâmina abrindo minha garganta.



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lobo

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Fixação

"Seu rosto na TV
Parece um milagre
Uma perfeição
Nos mínimos detalhes...

Eu mudo o canal
Eu viro a página
Mas você me persegue
Por todos os lugares...

Eu vejo seu pôster
Na folha central
Beijo sua boca
Te falo bobagens...
Fixação!
Seus olhos no retrato..."

Kid Abelha - Fixação

*****

Bia saiu do ônibus com a revista na mão. A revista que tinha a foto dele, seu ídolo, seu amor. Ela se sentia tola por isso, por amar alguém que nunca chegaria a conhecê-la, mas seu coração não deixava outra escolha.
Pensava em parar de fazer essas coisas, deixar de comprar revistas só pelos pôsters dele, de procurar fotos na internet, mas sabia que quando chegasse em casa abriria a revista pra ver a foto dele outra vez.
Era horrível essa sensação. Decorar cada detalhe daquele rosto perfeito, sorver cada palavra dita por ele nas entrevistas como palavras sagradas, amar uma imagem tão distante e saber que nunca seria real. O coração doía quando pensava nisso.
Bia não entendia a si mesma. Por que se permitir sonhar assim? Sabia que nunca teria o amor dele, pois tantas outras também o almejavam. Outras mais bonitas, mais inteligentes, mais determinadas que ela. Por que ainda se permitia sofrer por um amor tão bobo?
Chegou em casa, trancou-se no quarto e passou o resto da tarde fitando aqueles olhos, imaginando como seria tê-lo ali na sua frente, beijá-lo, amá-lo como ninguém mais poderia. Ficou nisso até sua mãe chamá-la para o jantar. Depois foram ver TV e, num programa de fofocas sobre famosos, Bia ouviu a notícia de que ele se casara. Era uma mulher bela, inteligente, tão famosa quanto ele.
Bia passou dias tentando não pensar mais nele e ninguém poderia entender sua tristeza.

Cama

O Fim

Abriu os olhos e estava novamente em casa. Chovia. Era uma manhã quente e chuvosa. Renata lembrou de uma música de um comercial de queijo: "This is the end! My only friend, the end." Engraçado como sempre tinha pensamentos loucos ao acordar.
Férias. Nada para fazer, mas era bom acordar cedo para ver o dia passando lentamente. Era bom aproveitar o sossego, a falta de compromisso enquanto podia. Os sonhos se renovando, a energia renascendo, sua vida se adaptando às mudanças. Quem a visse nesses dias diria que estava triste e entediada, mas a felicidade não era algo que ela vivia intensamente. Era de uma felicidade passiva, contentando-se com a felicidade alheia, por menor que fosse.
Levantou, tomou café e cuidou de seu novo amigo, o cãozinho Manuelito que aparecera em sua porta faminto e ferido, abandonado por alguém sem amor. Alimentou o animalzinho e acalentou seu próprio coração, faminto e ferido, coração guerreiro, como seu amigo, que agora devorava sua ração.
Passou a manhã lendo. À tarde, quando a chuva parou, saiu pra passear com Manuelito. Voltou e assistiu TV. Foi dormir quando o sono chegou. No outro dia foi tudo igual. Deliciosa rotina.

Violetas

Olhos brilhantes em um dia ensolarado

Mais um dia comum de trabalho. Uma fábrica inteira imersa em sua insone rotina. Todos, depois de certo tempo, já não tomam consciência de seus afazeres e tornam-se meros autômatos. O trabalho repetitivo consumindo almas e condenando-as ao fracasso pessoal. A esteira espalhando tarefas para todos os lados. Nem mais nem menos que outro dia de trabalho.
De repente, a esteira pára. Não é novidade para ninguém. É normal alguma máquina quebrar ou surgir algum outro problema. As máquinas humanas aproveitam para descansar. O chefe aparece perguntando onde foi que parou. Não sabemos. Afinal, quem se importa? O que nós queremos é aproveitar a folga. Eu me escoro em minha mesa, descanso as mãos. Quem pode, arranja lugar para sentar. Meu colega da frente se apóia na esteira. O vento, como se atendesse a um chamado, sopra em uma janela alta e distante, afasta alguns centímetros de uma cortina cinza e fúnebre e o sol vem nos visitar. Alguns poucos raios de sol para aqueles que acordam antes do dia.
Então, uma bela imagem vem enfeitar meu dia. O sol ilumina os olhos do meu colega, esse mesmo, que se apoiou na esteira e agora perde-se em pensamentos distantes. Não era bonito, nem assim tão feio, mas tinha olhos brilhantes. Sim, eram olhos bonitos. O sol revelando belezas escondidas na escuridão das máquinas. Uma beleza que tristemente voltaria a se esconder em poucos segundos.
Eis que novamente a esteira volta a andar e todos voltam à sua pobre realidade.


Estrela

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

"O cara"

O carinha chega no trabalho com seu andar gingado, cheio de pompa. O guarda-pó que usa é igual ao que todo mundo na fábrica usa, mas ele, pra fazer estilo, em vez de dobrar o colarinho, deixa-o reto, para cima, rente ao pescoço. E o cara fica se achando "o cara", colarinho aberto, cabelo com gel todo espetado, parece um dos meninos do KLB. Chega um outro amigo, mais espertinho, conversa com o carinha. Falam alto, dão risada. De repente, o amigo solta:
_ O que tu tem no pescoço que tu tá escondendo?
Eu, totalmente fora da conversa, ouvindo de gaiata, me seguro pra não rir.
O carinha dá um risinho meio sem graça e responde:
_Ué, nada...

KLB Doll

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Diálogo na banca de revista

Alguns anos atrás, numa banca de revista qualquer, em um lugar qualquer. Um garoto e uma garota, talvez só amigos, talvez mais que isso. Ele diz:
_ Olha aí, revista de horóspeco. A minha mãe sempre compra.
_ Não se diz "horóspeco". É "horóscopo".
_ Eu sei, eu falei de prepósito.
:-)

Cadê
Cadê o Totó?

O anjo e o vidro

Um dia como outro qualquer. Laura acordou cedo, tomou café, escovou os dentes. Saiu para o frio da manhã, enfrentando o mundo sem casaco. Cabelos loiros e presos. As franjas lutando contra o vento. Rosto delicado e sem sorriso. Mais um dia de trabalho a sua espera. Chegou ao ponto de ônibus. Cumprimentou os vizinhos. Apatia fulminando seus olhos. Era uma mulher bonita, mas sem muitos atrativos.
O ônibus chega. Laura embarca em sua pobre rotina. Sentou no mesmo lugar de sempre, quieta, paciente, e perdeu-se no mundo através da janela. A paisagem pouco se renova. Laura já não se aborrece. E eis que nesse cenário, algo novo acontece. O ônibus para e alguém entra. O rosto não é novo, Laura é que nunca o havia notado, sempre perdida em seus pensamentos. Ele passa a seu lado. Laura vê o anjo misturar-se com a paisagem no reflexo do vidro da sua janela. Não mais que um segundo. A imagem perfeita para acordar para a vida. E eis que Laura acorda para o amor. E Laura assiste ao seu anjo andar e voar e perder-se no ônibus, nos últimos bancos. Lá estava o seu destino. Mas o que fazer com um amor sem nome?

Ninfa

Conto de Vestiba II

Dia de prova na UFRGS. Sigo o mesmo itinerário dos dias anteriores, pegando o ônibus numa avenida movimentada de Porto Alegre. É cedo e o ônibus está relativamente cheio. Não deveria estar pela hora e época do ano. Encontro um assento vago ao lado de um senhor de roupas simples e olhar distante aparentando uns 40 anos de idade. Com o celular na mão ele ouvia um samba. Odeio samba, mas aquele homem de semblante calmo e alegre formava uma figura tão simpática que não pude me incomodar nem um pouco com o seu gosto musical. Distraidamente ele batia o pé ao ritmo da música e seu olhar se concentrava na paisagem do lado de fora do veículo. Alguns minutos depois chego ao meu destino e ele continua sua viagem perdido em seus devaneios. Para aquele senhor minha presença no ônibus não foi mais do que um fantasma.

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